26,4%. É a taxa de desemprego entre adolescentes de 14 a 17 anos no Brasil, segundo o IBGE. Para a faixa de 18 a 24 anos, o número cai um pouco — mas ainda bate em quase 15%, mais do dobro da média nacional.
E tem mais: 5,4 milhões de jovens no Brasil não trabalham e não estudam. A geração "nem-nem" cresceu em 2024 e não dá sinais de recuo.
Arlinda Flores e Fernanda Netto conhecem esses números de perto. E decidiram que conhecer não era suficiente.
O que é o Aliança Futuro
O Aliança Futuro — Empreender com Propósito, Inclusão e Liderança é um programa de treinamento que conecta jovens aprendizes e adolescentes em medidas socioeducativas com empresários locais. Não é mais um curso de capacitação técnica. O diferencial está exatamente aí: enquanto o jovem aprende vendas, atendimento ou análise de crédito em uma sala, o empresário está na sala ao lado sendo treinado em como recebê-lo.
Os dois lados aprendem juntos. Os dois lados mudam.
"Nosso diferencial é trazer esses jovens para a capacitação, mas junto com empresários que vão ser instruídos para que eles consigam incluir esses próprios jovens", explica Arlinda na apresentação do projeto.
Por que o modelo atual não funciona
Existe um problema silencioso no programa de Jovem Aprendiz: muitas empresas contratam para cumprir cota. O jovem entra, faz tarefas periféricas, o prazo termina, e alguém novo ocupa o lugar.
Não há carreira. Não há visão de futuro. Não há inclusão real.
Fernanda aponta outro problema que pouca gente fala: as empresas estão envelhecendo. A força de trabalho atual tem um horizonte de aposentadoria — e se não houver investimento na formação dos jovens agora, alguns setores simplesmente não vão ter mão de obra qualificada no futuro. A construção civil e os supermercados já sentem isso hoje.
"Se a gente não se preocupar com a força de trabalho do jovem hoje, futuramente a gente não vai ter quem execute as tarefas", diz ela.
O que o projeto entrega, na prática
O piloto do Aliança Futuro prevê:
- 4 turmas de jovens com capacitação técnica em vendas, repositor de gôndola, recepcionista e analista de crédito
- 4 turmas de empresários com treinamento em liderança, planejamento estratégico, matriz SWOT, indicadores de gestão e como conduzir uma contratação inclusiva
- 90 jovens formados, com estágio garantido para obtenção do certificado
- 90 empresários com ferramentas concretas de gestão e inclusão
O estágio não é simbólico: ele acontece nas próprias empresas que participaram do treinamento. O empresário que passou pelo programa já sabe o que esperar — e já sabe como apoiar.
De onde veio essa ideia
Arlinda foi menor aprendiz. Hoje é empresária. Ela sabe, por experiência própria, o que aquela primeira oportunidade pode mudar em uma trajetória.
"Eu me vejo lá atrás, aos 14 anos, já buscando algum tipo de capacitação técnica. Acredito que muitos jovens nessa faixa etária têm esse mesmo pensamento."
O projeto também olha para jovens que a maioria ignora: os que passaram por medidas socioeducativas. A reincidência no crime, especialmente em cidades menores, tem uma causa direta — a rejeição. O jovem que cumpriu medida não consegue emprego. A empresa não quer o risco. Ele volta ao único ambiente que não o rejeitou.
O Aliança Futuro trabalha para quebrar esse ciclo pelo único lado que pode ser mudado: a consciência de quem contrata.
Onde está hoje
O projeto já tem cinco pessoas envolvidas diretamente na execução e mais de 30 acompanhando e contribuindo indiretamente. O piloto foi aceito pelo vereador Marquinhos, da cidade de Vianópolis (GO), onde a implementação está prevista para janeiro de 2026.
A ideia não para por aí. Arlinda e Fernanda pensaram o projeto para ser replicável — estruturado para ser entregue a qualquer líder local que queira levá-lo para a própria cidade. O modelo funciona em pequenos centros exatamente porque é lá que as relações entre jovens, empresários e comunidade são mais diretas.
Como participar
O Aliança Futuro busca parceiros investidores e voluntários para os treinamentos de capacitação. Se você tem habilidade em liderança, vendas, gestão ou qualquer área que impacte jovens ou empresários pequenos, pode contribuir.
A lógica é simples: o projeto foi criado para ser entregue, não para ficar nas mãos de quem o criou.
"Nós vamos criá-lo para entregá-lo para alguém que queira liderar", diz Arlinda.




